Adão e Eva e nossa dor cotidiana.
Conhecer o bem e o mal
Todos nós conhecemos a história de Adão e Eva e do fruto
proibido. Alguns acreditam literalmente, outros interpretam de maneira
simbólica e outros tantos simplesmente ignoram a história, acham sem sentido e
sem valor. Da minha parte, não acredito literalmente, mas acredito que essa
história seja uma tentativa de dizer algo verdadeiro.
Deixemos
de lado as questões teológicas-metafísicas de lado e pensemos simplesmente no
que sabemos que aconteceu na história de ser humano. Sabemos que somos produto
de toda uma evolução das espécies e que, em algum momento, nós nos descobrimos.
Quero dizer que um dia, muito possivelmente por causa da linguagem, passamos a
pensar sobre nós mesmos, sobre a nossa vida e, então, passamos a ter todo tipo
de questionamentos éticos. O que somos? Como devemos viver? O que é morrer?
Inevitavelmente, passamos a pensar também a natureza e a nossa relação com ela,
tentando usar dessa capacidade de reflexão para sobreviver. Assim, conforme
fomos nos tornando mais complexos, criamos um mundo próprio e nos afastando da natureza,
inclusive recusando-a.
A
história do fruto proibido é, entre tantas outras coisas, uma maneira de falar
sobre essa transição. Temos em nossa imaginação que houve um tempo em que o ser
humano estava em harmonia com a natureza, mas que algum ato seu, algo que o
transformou, ele foi tirado daquela situação. O fruto proibido é o do
conhecimento do bem e do mal, segundo essa história. Deus diz que se comêssemos,
morreríamos. E quando Adão e Eva comem é dito que é como se seus olhos abrissem
e eles então podem perceber que estão nus. Como “punição”, somos expulsos do
jardim e caímos no mundo onde teríamos que trabalhar pra sobreviver, onde teria
dor, onde teríamos que criar a nossa própria roupa, várias consequências. Será
que essa história está tão errada?
Se
interpretarmos que o abrir os olhos é uma expansão de consciência, como se
tomar consciência é poder ver, ou seja, existe uma ligação simbólica entre
olho-visão e a consciência, como na linguagem comum (“os olhos são janelas da
alma”), então poderemos juntar o momento evolutivo com o momento bíblico.
Conhecer o bem e o mal, comer do seu fruto, é concomitante ao tornar-se
consciente. Nesse sentido, ver a si mesmo como nu é ter consciência que se está
desprotegido, exposto, vulnerável. Não acho que a história esteja trazendo a
mera ideia de pudor do corpo, ainda que possa ter relação. Se de fato estamos
diante de uma história da tomada de autoconsciência do ser humano, então se ver
nu tem que ser o momento que nos vemos inadequados em relação a todo o resto da
natureza, pois só nós estamos verdadeiramente pelados. Os animais são nus, nós estamos pelados. Não temos pelos ou casca, ou qualquer proteção, como eles.
E quando nós descobrimos assim, frágeis e inadequados, passamos a ter que
trabalhar para sobreviver, criar nossas roupas e, em última instância, enfrentar
a vida social.
Não é que fomos “punidos”
meramente porque ferimos uma regra divina, apenas sofremos a consequência direta
de nos tornarmos o que nós entendemos hoje como “indivíduo”. Além daquelas
consequências ditas, passamos a morrer, pois antes, enquanto éramos animais,
não sabíamos de fato que morríamos. E na vida humana é o saber que outros vão
morrer e que nós morremos e que constitui propriamente a morte, é a consciência
da morte que faz ela ser real. Pois a vida enquanto vida é plena, não existe
experiência de estar morto, isso é uma contradição. Entretanto, a morte se
torna real quando sabemos dela, aí podemos “viver a morte”.
Mas era impossível saber antes de
comer do fruto do conhecimento o que é bom e o que é ruim, conhecer as graças e
as desgraças do mundo. Na inocência de Eva, ela simplesmente comeu pois foi
tentada. Ela nem ainda poderia saber de fato que era errado, já que não tinha
essa consciência. Mas foi punida mesmo assim, já que não tem volta esse
processo.
Nenhum de nós escolhe todos os
dias conhecer o bem e o mal, ver coisas boas e também coisas horríveis, mas
todos os dias comemos do fruto. Todos os dias vemos pessoas horríveis, mas
também vemos pessoas ótimas. Vemos na mesma pessoa coisas ruins e coisas boas.
Vemos a fome e a abundância, o saber e a ignorância, a dor e o gozo. Vivemos
entre o bem e o mal, na mistura agonizante dos dois, sofremos por isso, mas
somos incapazes de fugir disso. Pois, em algum passado remoto, nós humanos escolhemos
o conhecimento e a consciência, sem saber o que estávamos escolhendo.
Puxa!
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