Sobre o caso Marielle Franco
O caso de Marielle Franco chocou
muita gente, mas sejamos francos: o que esperar quando o comandante do exército
havia dito que são necessárias garantias de que não haverá uma nova Comissão da
Verdade? Talvez isso de razões para pensarmos que a questão de Marielle – tanto
seu assassinato quanto suas denúncias – não são uma anomalia, mas a norma. Com
a diferença de que dessa vez foi tudo muito claro, o absurdo por ela sofrido
surge então como uma confirmação do problema.
Isso é o óbvio. Mas existem
aqueles que questionam por qual a razão a morte dela é mais importante que a de
tantos policiais, ou tantas outras pessoas nas mãos de bandidos. Esse
pensamento não está de todo errado, não devemos deixar de lado as pessoas que o
expõe. Se acreditarmos que todos essas pessoas queriam o bem, mesmo que de
maneiras diferentes, e não acho nenhum absurdo dizer que queriam, então é fácil
dizer que a violência sofrida por todos (e que se estende a família, amigos e
comunidade dessas pessoas) tem um peso igual em termos de tragédia. Existe,
entretanto, um caráter simbólico, mas real, em que a morte de Marielle se
destaca. Ela tinha o poder de diminuir essa violência, essa era uma de suas
lutas. Mas ao ir contra a violência, foi destruída por ela.
Um policial também luta por
diminuir a violência? No sentido nobre do trabalho, sim. Mas é difícil
acreditar que a polícia é solução absoluta. De qualquer maneira, a polícia é
violência, mesmo que justificada. O trabalho do policial é necessário e, se for
feito corretamente, também é um trabalho com dignidade, mas melhor seria se pudéssemos
diminuir essa necessidade. Pessoas como Marielle querem menos mortes em geral,
querem menos violência e tem em vistas um mundo com menos conflito. O simbólico
da morte de Marielle é que ela sem participar da violência e trabalhando para
que o uso da força fosse menos necessário, ou seja, ajudando também aos
policiais, assim como todas as pessoas, foi morta por aqueles que em verdade
ela queria ajudar. Pois mesmo as pessoas que ela denunciou, e mesmo aqueles que
a mataram, também participam de uma violência que em última instância não é
benéfica.
Por último devemos ter uma
pequena reflexão sobre justiça. Se recebo um tapa sem o ter provocado, em
outras palavras, se recebo uma violência injustificada, muitos diriam que é
justo retribuí-lo. Até certo nível isso é correto. Alguém me empurra, empurro
de volta. “Dente por dente, olho por olho”, mas será mesmo que esse é o ideal
mais alto de justiça? Tenho convicção de que não. Se a violência é um mal, o
acréscimo de outra violência em sentido contrário só vai aumentar, por assim
dizer, a quantidade de mal. A justiça não pode ser simplesmente “dar o troco”,
você me fere, então eu te firo. No máximo isso é vingança. Se a justiça quer
não só o equivalente, mas busca o bem, então ela deve ir além da violência
contra violência. Para a justiça, uma certa violência, como a privação da
liberdade na cadeia, pode até ser meio, mas jamais fim último. Uma das coisas
ajudaria a criar justiça para o caso de Marielle, ainda que não totalmente, é
se sua morte pudesse dar origem a uma mudança e que se trilhe o caminho para
diminuição da violência. Assim, teríamos combatido o mal com um bem.
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